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Rodrigo Janot, ex-procurador Geral da República afirmou em livro de memórias que pensou em assassinar o ministro do STF, Gilmar Mendes - Créditos: EVARISTO SA / AFP
Rodrigo Janot, ex-procurador Geral da República afirmou em livro de memórias que pensou em assassinar o ministro do STF, Gilmar Mendes / EVARISTO SA / AFP

A minha reflexão sobre a vida e a morte, a paz e a guerra vem sendo feita através de vários textos, sendo o mais importante nessa perspectiva O Inimigo Necessário (2015). A recente revelação através das páginas da revista Veja, feita pelo ex-procurador geral da República Rodrigo Janot de que pretendia matar o ministro do STF Gilmar Mendes, permite, como verdadeiro caso clínico, ampliar minha reflexão. A tentativa de homicídio, muito claramente expressa pelo ex-procurador, evidencia a destrutividade intrínseca à pulsão de morte, como também a conexão necessária entre homicídio e suicídio. Evidentemente que diante de toda sorte de ilegalidades que vem sendo cometida nos últimos anos pelo Poder Judiciário brasileiro, essa é a chocante demonstração da presença de narcisismo e paranoia destrutivos na atual conjuntura política.

 A norma geral (Constituição) é o esforço que as soberanias democráticas estabelecem para conter, não somente a agressividade destruidora do homem, mas também seu inescrupuloso desejo de domínio e posse. A violência que marca o funcionamento da vida sociocultural e política é sempre muito mais poderosa do que as tendências pacifistas em busca de concórdia e paz. Não se trata de apologia ao belicismo, mas a constatação de fatos históricos, sociais e políticos como realmente se apresentam. Dessa forma, transcrevo a seguinte citação de O Inimigo Necessário: “Disso resulta que, examinados historicamente, os grupos humanos estão sempre na iminência do confronto bélico, embora busquem ativamente a paz. A decorrência natural deste raciocínio é que o par antitético vida versus morte está no centro mesmo da vida sociopolítica. Diz Rozitchner: “o risco da morte, pelo que vimos em Marx e em Freud, apareceria diluído nas ciências sociais, apesar de que tenham mostrado que a violência, a guerra e a morte estavam como fundamento da organização social e individual” (ROZITCHNER, 1989, p. 113)”. (2015, p. 153).

A conduta de Rodrigo Janot revela os ingredientes emocionais que impulsionam os duelos que estiveram em moda durante vários séculos no mundo e, somente foram proibidos, no século XIV. O historiador da psicanálise Peter Gay descreve um tipo de duelo (Mensur) entre estudantes universitários alemães de extrema ferocidade, mas com o objetivo específico de produzir sérias cicatrizes, valorizadas como troféus de virilidade.

Esse dispositivo da pulsão de morte está intrinsecamente vinculado ao mecanismo da política e da guerra. Menciono novamente um trecho do livro já citado: “É possível perceber que o duelo, enquanto tentativa de imposição da vontade de um sujeito sobre outro, é a dualidade dialeticamente articulada com a trindade da estratégia e logística bélica. A batalha somente se dá no tripé política, força armada e população. Não existe guerra, portanto, sem política, nem política sem guerra. É esse entendimento muito bem captado pelo autor de Freud e o Problema do Poder. A passagem do individual ao grupal na relação dialética entre duelo e guerra situa o que Clausewitz chamou “estranha trindade”.

A guerra se coloca na perspectiva de luta e fuga que Bion tematizou, sendo sua finalidade em princípio inconsciente. Isso também caracteriza seu funcionamento esquizoparanoide, pois para alcançar a dimensão consciente e intersubjetiva do acordo e da concórdia é possível somente na dialética PS↔D. Ora, a triangularidade edípica que permite o ingresso do indivíduo na sociedade política, somente acontece quando o indivíduo supera o narcisismo individualizante.

Assim é possível equiparar o modelo de narciso ao duelo, enquanto a triangularidade edípica comprometida pela infiltração do instinto de morte será o modelo da “estranha trindade”. (O Inimigo Necessário, páginas 154 e 155). Paulo César Sandler inicia assim o prefácio de O Inimigo Necessário: “O Prof. Valton de Miranda Leitão disponibilizanos, com O Inimigo Necessário, mais um, dentre seus vários serviços de utilidade pública; de modo desinteressado (no sentido comercial) e ao mesmo tempo, totalmente interessado (no sentido social). Tento ressaltar, já de início, capacidades únicas do Prof. Valton – uma delas, a de tolerar paradoxos sem tentar resolvê-los.” (2015).

Sandler continua: “Temos aqui outra base para a investigação de Valton. Descoberta expandida, prática e teoricamente, pelo próprio Freud, e também por Klein, Winnicott e Bion. Em última análise, ocorre negação alucinatória da morte. Ocorrência inconsciente universal, submetida ao princípio do prazer-desprazer, desprezando o princípio da realidade.”

Evidentemente, que o caso Janot se enquadra na dinâmica da paranoia na qual o delírio de Poder prevalece absolutamente sobre o princípio de realidade. Dentro do quadro sociopolítico brasileiro atual, onde setores dirigentes da República estimulam constantemente a violência, podemos afirmar que a presente situação é a continuação da guerra política que se desenrola atualmente no país com a clara submissão à geopolítica norte-americana. O mais terrível dessa conjuntura nacional é que o horror está sendo naturalizado.

*Valton de Miranda Leitão é médico, psicanalista do Grupo de Estudos Psicanalíticos de Fortaleza, filiado à Associação Internacional de Psicanálise (Londres) e Coordenador da Escola de Psicoterapia Psicanalítica de Fortaleza.