Por que motivo existem cada vez mais diagnósticos de ansiedade? É já uma característica da sociedade moderna? 

A ansiedade assim como todas as perturbações psiquiátricas depende de uma componente biológica em que entram os nossos genes, aquilo que herdamos dos nossos pais, e de uma componente ambiental, daquilo que o mundo nos vai oferecendo. Enquanto o século XX se caracterizou pelo combate à negatividade, àquilo que nos é estranho e ao inimigo (com o combate das doenças infeciosas, a descoberta dos antibióticos, etc.), nos dias de hoje há um excesso de positividade, um excesso de estímulos, de impulsos de informação apoiados pela globalização.

“A Ansiedade nos Nossos Dias”, de Diogo Telles Correia, com a chancela da Bertrand Editora
15 coisas que tem de saber para não enlouquecer
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O ser humano é forçado a absorver um excesso de informação, responder e reagir com ela, encaixá-la no seu cérebro. E isto não significa integrar a informação, porque não há tempo para o fazer. Deixou de haver tempo para a reflexão e para crescer, o que existe é uma acumulação de informação que força a sua presença no nosso cérebro e o inunda. O Homem passou a viver como um autómato, que não consegue sequer parar para avaliar o tipo e a qualidade da informação que entra dentro de si.

Por isso, hoje, há uma tendência para que se desenvolvam pessoas aceleradas, que agem maquinalmente, divididas entre o chorrilho de informação veiculado pela comunicação social, as exigências profissionais (cuja competitividade e produtividade são os únicos fatores) e o consumo desenfreado e sem limites estimulado pelo marketing. Tudo isto torna mais fácil a ansiedade integrar-se no homem moderno e alastrar-se de forma a hoje ter tomado proporções incríveis. Cerca de 16,5% dos portugueses sofre de uma perturbação de ansiedade.

NOVO LIVRO

Esta semana chega às livrarias o “A Ansiedade nos Nossos Dias”. Com exemplos práticos de casos que passaram pelo seu consultório, o médico psiquiatra e psicoterapeuta Diogo Telles Correia aborda formas diferentes de encarar a ansiedade e responde a cinco questões: o que é; quais as suas causas; como se manifesta; como se diagnostica e como se trata.A sessão de lançamento do livro decorre a 20 de setembro, às 18h30, na Bertrand Picoas Plaza, em Lisboa.

Existem vários tipos de ansiedades? 

Hoje em dia identificam-se vários tipos de perturbações que cabem dentro de uma ampla categoria de doenças mentais relacionadas com a ansiedade e que recebem a designação de perturbações de ansiedade. São elas: a perturbação de ansiedade generalizada, a perturbação de pânico, a fobia social, as fobias simples, a perturbação de stress pós-traumático e a perturbação obsessiva-compulsiva.

É fundamental que se compreenda que frequentemente estes tipos de ansiedade sobrepõem-se. Por exemplo, um doente com uma ansiedade social pode também ter uma perturbação de pânico, um doente com uma perturbação de ansiedade generalizada pode ter também crises de pânico, etc. Como em toda a psiquiatria, além de ser comum a co-ocorrência de várias perturbações num mesmo paciente, é difícil muitas vezes distinguirmos inequivocamente uma perturbação de outra. Os diagnósticos em psiquiatria são feitos primordialmente para orientar o trabalho dos psiquiatras e psicólogos.

Se a ansiedade começar a atingir níveis demasiado elevados e contínuos, sem ser apenas em situações específicas, ela torna-se patológica

Esses medos são racionais ou na maioria das vezes inconscientes?

Uma das distinções habitualmente feitas é entre o medo normal, que é saudável, e a ansiedade. É normal que, numa situação de ameaça ou perigo, reajamos com ansiedade, o que nos permite enfrentar ou escapar ao perigo rapidamente. Também em situações de maior exigência, uma prova académica, uma reunião com o chefe, uma apresentação pública, por exemplo, é normal que a ansiedade surja e nos prepare para uma melhor prestação.

Contudo, se esta ansiedade começar a atingir níveis demasiado elevados e contínuos, sem ser apenas em situações específicas, ela torna-se patológica, e acarreta níveis intoleráveis de tensão psíquica e mental, que deixam de ser adaptativos. Geralmente reserva-se o termo ansiedade para situações patológicas e fala-se em “medo-normal” para reações físicas e psíquicas associadas a preocupações reais.

Na ansiedade como perturbação mental, os medos focam-se, em grande parte dos casos, em situações subjetivas. Um medo do medo, um medo de algo sem forma, sem cor. Ao contrário da ansiedade descrita por Darwin, este medo foca-se em preocupações internas, produto de uma mente humana. O medo de adoecer, o medo de falhar, o medo de não controlar, o medo de morrer… Devido a esta complexidade, diz-se ser uma doença apenas do ser humano.

Por que motivo é possível ter medo do outro? Às vezes do mais próximo…