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Para Tatiana Berringer, professora de Relações Internacionais da UFABC, a posição do Brasil na cena política internacional está em pleno declínio e conduta de Bolsonaro na ONU só reforça seu desgaste

Em seu discurso na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, na manhã desta terça-feira (21), o presidente Jair Bolsonaro vendeu um Brasil imaginário, defendeu o chamado “tratamento precoce” contra a Covid e chegou a falar em “ameaça socialista” no país. Além disso, mentiu que seu governo protege as florestas brasileiras, os indígenas e sugeriu que a economia vai bem. Tratou-se, basicamente, de uma reprodução dos pronunciamentos que faz aos seus apoiadores no “cercadinho” do Palácio do Planalto. A fala de Bolsonaro na ONU foi feita em meio aos constrangimentos aos quais o mandatário foi submetido desde que chegou a Nova York. Único entre os líderes do G-20 que não tomou vacina contra a Covid-19, o chefe do Executivo foi impedido de entrar em restaurantes na cidade estadunidense por não estar imunizado, virou motivo de piada na imprensa internacional e chegou até mesmo a ser repreendido pelo prefeito de Nova York, Bill De Blasio.“Precisamos mandar uma mensagem a todos os líderes mundiais, especialmente Bolsonaro, do Brasil, de que se você pretende vir aqui, você precisa ser vacinado. E se você não quer se vacinado, nem venha, porque todos devem estar seguros juntos. Isso significa que todo mundo deve estar vacinado”, disparou o democrata em pronunciamento. Para Tatiana Berringer, professora de Relações Internacionais da UFABC e integrante do Observatório de Política Externa e Inserção Internacional do Brasil (OPEB), o discurso de Bolsonaro na assembleia da ONU, bem como sua conduta de ir ao evento sem tomar vacina, reforça a “imagem bastante degrada” que o presidente já tinha diante da comunidade internacional.Em entrevista à Fórum, a professora, que é Doutora e Mestre em Ciências Políticas pela Unicamp, avaliou que a comunidade internacional, atualmente, recebe o discurso e a conduta negacionista de Bolsonaro com “chacota” e que o governo brasileiro atua “totalmente fora dos protocolos do mundo da diplomacia”.

“A posição do Brasil na cena política internacional está em pleno declínio”, analisa.

Fórum – O presidente Jair Bolsonaro, desde que chegou em Nova York para a assembleia da ONU, vem passando por constrangimentos. O prefeito da cidade, Bill De Blasio, por exemplo, chegou a fazer um pronunciamento e citar Bolsonaro nominalmente, afirmando que, se ele não quisesse se vacinar, que não fosse ao evento. Que tipo de impacto, para a imagem do Brasil no exterior, esse tipo de declaração do prefeito pode causar? 

Tatiana Berringer – Ele [Bolsonaro] já está com uma imagem bastante degradada desde o início da pandemia e diante da postura de negacionismo. E os números brasileiros, o descontrole da pandemia, já demonstravam um descrédito internacional. É um reforço. Há um dado fundamental sobre essas conferências da ONU. Há um elemento que é para a comunidade externa e outro para a comunidade interna. Me parece o seguinte: o fato de haver um constrangimento externo à postura do presidente deveria gerar um impacto doméstico entre aqueles que o apoiam. Mas acho que não é isso que a gente vai ver. Acho que só demonstra como os seguidores [de Bolsonaro] estão aliados e bastante concatenados com essa postura. Mas do ponto de vista da imagem é um reforço. Há um certo constrangimento da comunidade internacional, alguns líderes podem falar, mas é um impacto simbólico. Não surpreende, na verdade.

Fórum – Bolsonaro falou sobre “ameaça socialista”, “tratamento precoce”, aquele discurso que ele sempre faz para sua base no cercadinho. Neste sentido, acredita que o presidente não tenha olhado para as relações internacionais nesse discurso e esteja somente se voltando para essa sua base?

Tatiana Berringer – Acho que não é só isso. Se for ver historicamente os discursos, mesmo de presidentes progressistas, são claramente apresentados os programas de governos, digamos assim. Então, é normal que se apresente. Isso não quer dizer que é só uma síntese de um momento que a nação vai ver ou assistir e entender esse programa. É porque essas plataformas políticas são pensadas também na relação com o capital externo. Então, também dá um recado. Eu assisti essa fala de duas maneiras: no começo, essa questão de estar livrando o Brasil do socialismo, e no final com tratamento precoce – parecem que falam mais para sua base interna. Mas temos que lembrar que é um governo com características neofascistas, bastante amparado por uma ideologia neofascista, que há também em outras partes do mundo, como nos EUA. Então, você fala também para essa base de alguma maneira. É um aceno a essa aliança internacional. Mas no restante, logo em seguida que fala de socialismo, começam algumas mentiras do próprio programa político. Que é falar que atraiu muito capital externo. É mentira. Mesmo após o 7 de setembro houve uma fuga de capital financeiro, teve um impacto. E aí, apresenta agenda de privatizações, uma sinalização pra investidores externos. Mas acho que, naquilo que a gente pode pensar da imagem, não só o fato de ele ir à ONU não estando vacinado, do prefeito de Nova York falar, me pergunto qual o impacto para a comunidade internacional do fato de ele defender tratamento precoce abertamente, que está numa esfera de obscurantismo. Você está dentro da ONU negando o que a OMS falava. Então, é uma questão muito complicada, uma contradição muito grande. Eles não negavam a incoerência entre o discurso e a prática. Se a política externa era baseada pelo anti-globalismo, anti-multilaterialismo, por que ir à ONU? Mas não é para ter coerência, não é um governo disso.

Fórum – E qual você avalia que seja o impacto dessas falas negacionistas, como a comunidade internacional recebe isso?

Tatiana Berringer – Acho que meio como chacota, meio aquela coisa “que absurdo”. E vai um pouco na linha do que foi no ano passado, que ele praticamente fez um elogio à política de preservação ambiental quando toda a comunidade internacional, especialmente EUA e União Europeia, criticavam a política ambiental brasileira. Então, acho que já virou uma coisa de um certo descrédito, como é nacionalmente, para uma parcela que não o apoia e que já está com esse tipo de olhar. Acho que é um pouco esse “que absurdo”. É bastante irresponsável, para dizer o mínimo.

Fórum – Em reação a protesto de ativistas contra Bolsonaro em Nova York, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, ficou extremamente irritado e fez gestos obscenos para os manifestantes. Como você avalia esse tipo de atitude de um ministro de Estado durante um evento com essa importância? 

Tatiana Berringer – Eles [membros do governo Bolsonaro] atuam totalmente fora dos protocolos do mundo da diplomacia. Isso já vinha desde a gestão [Ernesto] Araújo, quando acusava o vírus de ser de origem chinesa, se referia aos chineses de forma pejorativa… De fato, não podemos dizer que há um respeito às instituições, que é o que este mundo da diplomacia representa. Neste ponto que volto à pergunta inicial: e a imagem do Brasil? A imagem do Brasil já está, desde 2016, e não é só a imagem, é a posição na cena política internacional, em pleno declínio.