Crédito: Alan Santos/PR

Como integrante da administração pública, o presidente do Brasil, no caso Jair Bolsonaro, tem a prerrogativa da discricionariedade na outorga de condecorações. Essa liberdade para agir tem de ocorrer, no entanto, dentro de algumas fronteiras normativas. Isso no campo objetivo. Na área da subjetividade, o que conta é a ética. Ou seja: a discricionariedade não transforma o mandatário em proprietário de um título nobiliárquico, de uma comenda ou medalha. Mas o capitão do Palácio do Planalto não tem limites em seu patrimonialismo.

É um atropelo à razão Bolsonaro fazer farra com a Medalha do Mérito Oswaldo Cruz, uma das mais tradicionais do Brasil, criada em 1907 para homenagear o sanitarista homônimo que tanto enobreceu nossas pesquisas e práticas científicas. Em 2021, merecem a medalha todos os profissionais da área da saúde que estão há cerca de um ano e meio na linha de frente de combate à Covid-19. A eles tem de ser dada a Medalha Oswaldo Cruz. Bolsonaro, sem o menor pudor ético, acaba de entregá-la a sua mulher, a primeira-dama Michelle — e concedeu-lhe a honraria na denominada categoria ouro. Se Bolsonaro está carecendo agradar Michelle, que vá a uma joalheria e compre, com seu próprio dinheiro e não esfolando o erário, alguma jóia que preste.

Um dos critérios para recebimento da medalha Oswaldo Cruz, na categoria ouro, é ter realizado algo de notável importância no campo da saúde, entre outras áreas do conhecimento. O que Michelle fez pela saúde em um País que soma tragicamente quase seiscentos mil mortos pela Covid? Nada, nada, nada. Que legado nos deixará? Nenhum. A sua condecoração afronta as pessoas que se dedicam à ciência e a pacientes com responsabilidade e empenho. Michelle não demonstrou o menor constrangimento em ser agraciada sem ter merecimento. Em tempos de Jogos Olímpicos, Bolsonaro é capaz de tentar presenteá-la também com alguma medalha olímpica. Modalidade: “não fazer nada”! Apenas ser esposa do presidente!

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