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REFLEXÕES DO PASSADO E PRESENTE: PERSPECTIVA DE MELHORA PARA O FUTURO


 

Crédito: Divulgação

(Crédito: Divulgação)

Carlos José Marques

Messias, o capitão reformado, ora na posição de mandatário da República — que, para ele, cada dia mais, vai se mostrando uma condição deveras extravagante —, resolveu expor abertamente seu decálogo de aberrações contra a Educação e a Cultura no País. Tal qual um profeta com suas tábuas da lei escritas em pedra, condizentes com os mandamentos típicos da era paleolítica, tem exaltado o evangelho da ignorância. Decapitou os recursos do ensino superior e básico. Impôs a abolição, por encolhimento de incentivos, dos cursos de Filosofia e Sociologia nas unidades públicas, tidas por ele como sem utilidade prática.Asfixiou a Cultura limitando o alcance da Lei Rouanet. Proibiu campanhas publicitárias saudando a diversidade. Retaliou financeiramente a mídia que não lhe é simpática.Convocou alunos a filmar professores em sala de aula, ressuscitando a espionagem macarthista que perseguia supostos comunistas nos idos de 50.Fez de tudo um pouco para impor a doutrinação ultraconservadora e regressiva que marca seu interregno de poder. Isso em menos de 150 dias no Planalto. O que ainda pode estar por vir? Os linchamentos virtuais contra tudo e todos viraram rotina. Basta se opor ao governo para automaticamente ser tachado de esquerdopata e sofrer perseguições. Na guerra cultural, o clima de revanchismo ficou claro. Acadêmicos, músicos, artistas, autores, jornalistas, historiadores, filósofos, o conjunto de intelectuais classificados por sua turba de “comunistas”

 

— de mais a mais uma alcunha já praticamente extinta, restando como fantasma apenas na cabeça desses bolsominions — têm de ser combatidos implacavelmente. Verdadeiras milícias torquemadas foram montadas com o intuito de responder a qualquer um que questione os métodos de Messias. Ideólogos e gestores do bolsonarismo já esvaziaram mecanismos de avaliação dos estudantes, desmontaram instrumentos de execução do Censo de 2020, fizeram revisionismos históricos da grade curricular, estabeleceram censuras obscurantistas sob o lema da “Escola sem Partido”, cravaram a ideologia dirigida no novo regime de educação domiciliar e só não impuseram o mantra marqueteiro de campanha “Brasil acima de tudo…” nas escolas porque a grita foi grande. Mesmo assim, restou o sistema controlado e policiado. A faxina sanitária do conhecimento está em franca execução. O menosprezo a diversas ciências e fundamentos do aprendizado demonstra que anos de trevas podem despontar pela frente. Universidades, estudantes em geral, comunidades “pensantes” tentam reagir nas ruas e nos meios de comunicação que restam. Do outro lado, o voluntarismo das legiões de fanáticos e convertidos só não é maior que as mentiras insistentemente veiculadas por Bolsonaro nas redes sociais para embasar as teses que professa. Dia desses o capitão postou um vídeo no qual uma aluna confronta um professor de gramática, alegando aos berros que ele estaria fazendo política no ensino de língua portuguesa. O presidente ainda comentou sobre o vídeo, em tom de repreensão, que o docente deveria “ensinar e não doutrinar”. Descobriu-se depois que a tal aluna era uma filiada do seu partido (PSL) e integrava o diretório municipal da legenda, fazendo patrulhamento ideológico na escola, numa ação típica dos anos de chumbo da ditadura. Nas décadas do regime de exceção, militares invadiram faculdades, fizeram prisões arbitrárias e destruíram laboratórios e bibliotecas, com generais pregando o aniquilamento da Cultura “pelos próximos 30 anos”. Não conseguiram, mas tentaram. Estamos longe de algo parecido, embora o tom de ameaça ronde no ar. Retrocessos, inimagináveis em qualquer país que se pretenda minimamente civilizado, já foram praticados até aqui. O governo Bolsonaro, claramente beligerante do ponto de vista ideológico, capaz de expedientes torpes como o do episódio da aluna militante (veiculado pelo mandatário sem checar ou deliberadamente para distorcer, numa postura nada condizente com a esperada de um chefe da Nação), parece ter adotado o lamentável princípio do “pense igual a mim ou não pense nada”. No bombardeio de fake news demonstra desconhecimento inclusive sobre aspectos elementares da Educação. Em uma de suas recentes mensagens o presidente argumentou que “poucas universidades tem pesquisas e, dessas poucas, grande parte está na iniciativa privada”. Errou feio. A Clarivate Analytics, uma das empresas mais respeitadas em análise de pesquisas acadêmicas e registro de patentes, demonstrou o contrário: dentre as 50 instituições brasileiras que mais publicaram trabalhos científicos nos últimos cinco anos, 36 são universidades públicas federais, sete estaduais, outras cinco entidades de pesquisa ligadas ao governo e uma unidade também estatal de ensino técnico. Na lista existe apenas uma única instituição privada. Do total de cerca de 214 mil trabalhos, mais de 81 mil foram publicados pela USP, Unesp e Unicamp. Somente a USP respondeu por 22% de toda a produção científica do País durante o período. E, mesmo assim, Bolsonaro optou por reduzir as verbas, sustentado numa premissa falsa, embalado por um viés nitidamente partidário. Seu apóstolo mais diligente no ramo não poderia ser outro que não o novo ministro da Cultura, Abraham Weintraub, egresso do mercado financeiro, com quase nenhum traquejo ou experiência no assunto. Para quem alimenta algum interesse em se aprofundar no currículo do comandante do MEC (o segundo em meses, tão desastroso como o antecessor) vale registrar que no seu boletim acadêmico como aluno de economia da USP consta média de 2,1 pontos por prova no primeiro ano letivo, com diversas reprovações e faltas. Levado em análise o curso inteiro, as notas melhoraram pouco, girando na faixa de 4,8 numa escala de 10, sendo Weintraub reprovado em quase 40% das disciplinas nas quais se matriculou. Talvez movido por essa experiência frustrante, ele recentemente tachou de “balbúrdia” o que acontecia nos campus e justificou os cortes nas universidades e escolas — ensino básico, médio e superior sem distinção — como meros “contingenciamentos”, passíveis de revisão. Retaliações de um recalcado do sistema? Vai saber. Decerto não atenua nada o reprovado Weintraub “tucanar” a tesourada. O Estado meteu a mão no orçamento vital ao funcionamento dessas entidades. Muitas já à míngua, com ameaça de fechar as portas. A tática de estrangulamento da produção acadêmica lembra a do ditador húngaro, Viktor Orbán, que recentemente mudou a lei para inviabilizar o funcionamento da Universidade Centro Europeia (CEU), reconhecida por seus estudos sobre a democracia naquele país. Na explicação bisonha de Weintraub, era investir no ensino básico ou no superior. As duas coisas não pode? Como assim? No momento cômico da sarabanda de declarações do ministro, ele confundiu o escritor alemão Franz Kafka com a iguaria da culinária árabe, Kafta, para se referir ao autor do livro “O Processo”. Cultura pura! Que os alunos formados pela doutrina Bolsonaro/Weintraub não sigam o exemplo. Na ausência de Kafka, o escritor, vale anotar a semelhança alucinante entre as receitas aventadas por essa geração de políticos nativos e a deliciosa mistura de carne moída da Kafta, em ambos os casos trituradas para produzir algum resultado. Não se engane com a lorota palanqueira do presidente exaltando a liberdade de expressão e as instituições de ensino. Na cozinha onde elabora o cardápio de acepipes recorre ao expediente de calar os supostos adversários. Há de se perguntar o que Bolsonaro tem contra o livre pensar. Por que matar a reflexão, a contestação, a crítica eventual e a discordância se são fundamentos do processo democrático que reiteradamente ele e seus asseclas juram respeitar? A ideia insofismável de tolher as verbas à Educação, à Cultura e aos diversos meios de comunicação não passa no crivo de reconhecimento das liberdades individuais em nenhum lugar do mundo. Bolsonaro, em todos os gestos e decisões, busca reiterar um binarismo tacanho entre esquerda e direita para justificar a ruptura que pratica no País. Prefere homenagear o desbocado guru da Virgínia, pelos atos de desestabilização da República, a louvar o árduo e pouco reconhecido trabalho de docentes que mal conseguem sobreviver com o que ganham. Haja injustiça!

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