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As bandeiras do Brasil que enfeitavam as janelas sumiram, assim como os adesivos nos carros

* Colaborou Eduardo Matysiak

As bandeiras do Brasil que enfeitavam as janelas sumiram, assim como os adesivos nos carros. Os motoristas não buzinam mais quando enxergam algum pedestre vestido de vermelho. Não se veem os outdoors de boas-vindas que demarcavam as fronteiras da “República de Curitiba”. As camisetas da CBF repousam nas gavetas. Nos domínios do ex-juiz Sérgio Moro, o triunfalismo cedeu lugar a um apoio constrangido e a um prudente distanciamento. Uma fenda abriu-se na armadura do herói nacional e não é de agora. Desde que vieram à tona as circunstâncias do convite de Jair Bolsonaro a Moro para integrar o ministério, acrescidas das sucessivas trapalhadas do governo, o magistrado deixou de ser uma celebridade inconteste na cidade. Cada vez mais, o grupo de seus apoiadores fervorosos e incondicionais confunde-se com o núcleo do bolsonarismo, aquela turma disposta a negar qualquer evidência factual e até científica do desastre em curso no País. “A impressão é de que eles faziam alguma armação para prender o Lula”, intui o gari Sezinando Natel ao comentar o vazamento das comprometedoras conversas entre o juiz e integrantes do Ministério Público Federal. “Moro tinha que tomar as decisões sozinho, trabalhar em cima do processo, da verdade, e não ficar de acerto com o promotor.” A artista Keila Kern concorda: “Qualquer um com o mínimo de consciência deveria renunciar ao cargo ou se afastar da função até a apuração dos fatos. Não há mais dúvidas de que o julgamento do Lula foi político, parcial e tem de ser anulado”. Não faz muito tempo, em Curitiba, Natel e Kern só poderiam manifestar suas opiniões em encontros reservados, a portas fechadas. Criticar Moro era um crime de lesa-pátria perpetrado por defensores de corruptos, passível de agressões verbais e físicas. Quando Lula foi depor pela primeira vez na Vara Federal, a República fez questão de lembrar ao ex-presidente onde ele pisava: enquanto os apoiadores do petista realizavam uma vigília nas imediações do prédio histórico da Universidade Federal do Paraná, no centro da capital, o trajeto entre o aeroporto e o gabinete de Moro estava repleto de bandeiras do Brasil e mensagens de ódio. Deu-se um embate não tão silencioso entre as ruas e as janelas.

FOTO: PAULO LISBOA/BRAZIL PHOTO PRESS

Quem hoje se antecipa na defesa do ministro da Justiça, antes mesmo de conhecer o inteiro teor das conversas em poder do site The Intercept Brasil, integra, porém, as hostes bolsonaristas. Eder Borges, ex-coordenador do MBL no Paraná e ex-assessor do deputado Fernando Francischini, é um deles. O vazamento das informações, acredita, é obra de “defensores de corruptos” que agora se “revoltam contra aqueles que realizam um trabalho sério, mudando o Brasil com o desmantelamento de esquemas de corrupção e punindo grandes empresários”.

Borges insiste no mantra. Moro, afirma, tem amplo apoio popular, é patriota e tem realizado um trabalho grandioso em proveito do País. De quebra, defende Bolsonaro. “Pela primeira vez”, responde pelo WhatsApp, “temos um governo que de fato combate a corrupção.” O ex-assessor e a psicóloga “cristã” Marisa Lobo estão em sintonia. Nacionalmente famosa após ter seu registro cassado pelo Conselho Regional de Psicologia do estado por defender a “cura gay”, Marisa só considera transgressão o vazamento das mensagens entre Moro e os procuradores da Lava Jato. “Que crime ele cometeu?”, pergunta, antes de responder. “Nenhum. Lula não foi condenado por um juiz. Ele foi condenado pela Justiça brasileira.”

Ramon Bentivenha, professor de Direito Constitucional, tem uma avaliação diferente. Após a divulgação das conversas, diz, a imagem do juiz imparcial e equidistante desmanchou-se de vez no ar. “Nunca é demais lembrar que no Estado Democrático de Direito a lei deve valer para todos. Ninguém está acima ou abaixo dela. Isso vale, ou deveria valer, inclusive para aqueles que juravam defender a Constituição. As instituições não devem ser coniventes com esses tipos de desvios.”

Bentivenha acrescenta: “Passados cinco anos do início da operação, quantos empresários continuam presos? Teriam eles cumprido as décadas de condenação impostas? A quem a Lava Jato serviu? Quem a Lava Jato realmente almejava prender?”

Outro advogado, Luís Carlos da Rocha, aponta uma mutação em Moro entre o fracasso da Operação Banestado, nos anos 1990, e o estrelato da Lava Jato. A despeito dos arroubos e da dificuldade em respeitar a hierarquia do Judiciário, o magistrado curitibano empenhava-se em manter um estilo discreto de atuação. Mas não resistiu aos holofotes a partir de 2014. “Desde então, tornou-se frequente a sua presença em eventos nos quais não deveria comparecer em razão da sua posição. Inclusive com políticos. Quem não se lembra da foto com Aécio Neves? A condição de super-herói o embeveceu.”

O termo “República de Curitiba” ganhou notoriedade quando Lula o mencionou naquele famoso diálogo com a então presidenta Dilma Rousseff vazado de forma criminosa por Moro. A exposição da conversa impediu que o ex-presidente fosse nomeado ministro da Casa Civil, tentativa derradeira de barrar o impeachment.

Embora fosse o caso, o juiz escaparia de qualquer punição ou reprimenda. Ao contrário, teve a certeza de que seus atos seriam abençoados desde que atingisse os objetivos de interditar o petista. A Dilma, Lula afirmou estar assustado com a falta de limites da “República de Curitiba”, uma alusão à “República do Galeão”, grupo de militares antivarguistas que conduziu as investigações do atentado contra o jornalista Carlos Lacerda, cujos resultados levariam ao suicídio de Getúlio Vargas.

O cientista político Ricardo Costa de Oliveira, da Universidade Federal do Paraná, define a “República de Curitiba” como uma ação entre amigos, espacialmente instalada com “personalidades originárias do sistema judicial federal, paranaense e curitibano, com suas localizações e origens institucionais”. Os integrantes da Lava Jato, descreve, operam em um circuito “fechado” e funcionam “em rede”.

Oliveira coordenou a pesquisa “República do Nepotismo” e utilizou uma técnica denominada prosopografia, estudo da biografia de determinados grupos sociais ou políticos. A partir do levantamento, afirma, fica demonstrado que funcionários públicos como Sérgio Moro e Deltan Dallagnol e os advogados ligados às delações premiadas têm a mesma origem social, herdeiros de integrantes do Judiciário e da política paranaense. “Eles se conhecem, muitas vezes desde a infância, porque os pais já se conheciam. Frequentaram as mesmas escolas, universidades, têm sociabilidade em comum. Quer dizer, vivem na mesma bolha. Têm as mesmas opiniões e gostos políticos e ideológicos. E todos têm conexão com a indústria advocatícia, com os grandes escritórios jurídicos.”

Fernando Lopes, microempresário, militante ativo na Vigília Lula Livre, prefere uma abordagem psicossocial. Ele credita a suposta sensação de superioridade da “República de Curitiba” ao DNA cultural. “Seríamos mais europeus que os demais brasileiros”, avalia Lopes, nascido e criado na capital paranaense. Desse caldo de cultura, insiste, teria germinado a ideia de que os moradores da cidade representariam os altos ideais de honestidade e ordem, branca, resultado de uma guerra da secessão imaginária separada da porção corrupta e inferior, o Brasil dos pretos e mestiços, dos pobres e dos ladrões.

Resta saber quanto essa imagem ficará embolorada à medida que novos trechos das conversas vierem a público. De qualquer maneira, diante do que se sabe até o momento, a “República de Curitiba” se parece com as ruínas de antigos impérios.

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